Pandemic


Pandemic pode ser descrito como um blockbuster cinematográfico transposto para um tabuleiro de jogo. Os ingredientes estão lá todos: 2 a 4 heróis prontos a deixar as suas pacatas vidas, um mundo prestes a entrar em colapso e quase sempre uma certa calmaria antes das coisas começarem a ficar realmente más. No entanto, e ao contrário do comum blockbuster, nem sempre em Pandemic o final é feliz.

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Fonte: Boardgamegeek.com

Legenda: A senhora na capa é uma cientista pronta a deixar a sua pacata vida de laboratório. Provavelmente vai-se apaixonar durante o enredo pelo médico (que se encontra á sua esquerda) mas isso são contas de um outro jogo.


Pandemic é um excelente jogo para introduzir não-gamers a este mundo de cheiro a cartão refinado e ao verniz das pequenas peças de madeira. O próprio conceito de que vamos jogar todos em equipa contra o próprio jogo, leva aqueles a quem apresentamos o jogo pela primeira vez (por conseguinte abrindo-lhes a caixa de pandora do mundo dos jogos de tabuleiro modernos) a olharem para nós com aquele olhar desconfiado a quem tentam vender José Sócrates como o gestor das suas finanças pessoais. Nas suas lembranças de crianças, qualquer associação a jogos de tabuleiro passava pelo saudável extermínio dos seus amigos às mãos do capitalismo selvagem (Monopólio) ou aos pés das suas forças invasoras no mapa (Risco).

Quando lhes confirmamos mais uma vez que sim, que somos nós contra o jogo, aquele estranho olhar continuará até se transformar durante o decorrer da partida num esgar de espanto e admiração pelo que um simples tabuleiro de jogo, cartas e peças de madeira e plástico nos podem fazer experienciar.
Experiências religiosas à parte, Pandemic é simplesmente um jogo onde cada jogador assume o papel de uma personagem num mundo que parece nunca estar a salvo de 4 devastadoras doenças. Tão resilientes quanto o cirurgião plástico da Cher ou tão assustadoras quanto o domínio da língua Portuguesa do Jorge Jesus.

Cada jogador move o seu peão no tabuleiro de jogo, viajando de cidade em cidade, de continente em continente, curando focos de infecção dessas mesmas doenças, prevenindo que aquilo que já parece mau agora, se torne pior ainda daqui a dois ou três turnos. Através de cartas que os jogadores vão recolhendo no final dos seus turnos, eles poderao viajar mais facilmente descartando algumas dessas cartas, ou poderão mesmo curar algumas dessas maléficas doenças descartando um certo número de cartas da mesma cor da doença que pretendem curar.
Até aqui tudo bem. Mas como em qualquer blockbuster americano, quando as coisas parecem bem é quando elas começam de facto a correr mal. No final do turno de cada jogador, um certo número de cartas do baralho das doenças é revelado e a cada cidade revelada um cubo da respectiva doença é adicionado. Pior: uma cidade nunca pode ter mais do que 3 cubos de doença. Quando um quarto deve ser adicionado há um contágio e, todas as cidades conectadas com essa cidade, recebem um cubo dessa mesma doença. Pior ainda: isto leva a que algumas cidades já com 3 cubos de doença provoquem  também um novo contágio. Consequentemente o inferno desce à terra em forma de cubos coloridos. Pior, pior ainda: por vezes, quando os jogadores compram as cartas de cidades que os vão ajudar, encontram escondida uma carta Epidemia. Esta simpática carta, para além de infectar uma nova cidade directamente com 3 cubos, faz com que todas as cartas de doença que foram previamente reveladas (infectando as respectivas cidades) voltam ao topo do baralho, o que significa que aquela cidade que tinha 3 cubos e cujo perigo parecia ultrapassado visto que a carta já tinha sido revelada, pois bem, corre o risco de ser novamente infectada. Pior, pior, pior ainda: o nível de infecção aumenta, o que significa que vamos passar a revelar ainda mais cartas sempre que o jogo infecta cidades, o que por sua vez levará a mais cubos espalhados pelo tabuleiro (se os cubos de uma doença estiverem todos no tabuleiro, perdemos), o que por sua vez levará a mais contágios (se atingirmos 8 contágios, perdemos), o que por sua vez…. bem, acho que já perceberam o enquadramento dramático.

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Fonte: Geekmom.com

Legenda: As cartas verdes em cima são as terríveis cartas de infecção enquanto as cartas azuis em baixo são as cartas que nos ajudarão, excepto se uma carta Epidemia decidir aparecer. No lado esquerdo o nível de contágios.

 

A esta altura vocês devem estar a pensar a que tipo de masoquistas se destina este jogo, mas há algo de extraordinário naquela sensação de impotência perante um destino sombrio: e isso é o sabor da vitória! Quando em grupo, derrotamos o jogo curando as 4 doenças reclamando uma vitória que parecia praticamente impossível de acontecer, isso meus caros, é difícil de descrever. Há uma certa sensação de heroísmo e superação apenas possível através da cooperação entre todos. É óbvio que o mundo real para lá das nossas janelas continuará o mesmo depois do jogo: duro, injusto e desigual. No entanto, entre nós um laço de comunhão emerge mais forte, um reforço social entre novos e velhos, adeptos desavindos de clubes diferentes, almas políticas de universos distintos. Todos juntos criámos um momento. Irrepetível. Distinto. Profundo.
Antes que pensem que este último parágrafo foi retirado de um daqueles livros cor-de-rosa que se vendem como pastéis quentes pelas alturas do natal, deixem que vos diga que as vezes que irão perder neste jogo, serão consideravelmente maiores do que as vezes em que irão ganhar. Será tão comum vocês suspirarem de alívio proferindo as famosas palavras finais “acho que temos isto sobre controlo”, para de seguida perderem de uma forma espectacular que, em sessões futuras, aquele espectro de incerteza pairará sempre no ar tal qual a certeza de que estar vivo é o contrário de estar morto.

Pensamentos profundos de lado, termino este pequeno texto para fazer a defesa do sofrimento (não vivêssemos nós num país maioritariamente cristão): Pandemic é essencial na vossa colecção! Não é opcional, é essencial! A menos que sejam chineses: nesse caso é obrigatório!

Nas minhas sessões a Ásia é sempre o maior problema.

Maldita gripe das aves.

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Fonte: 3.bp.blogspot.com

Legenda: Mesmo na primeira edição de Pandemic a Ásia nunca nos deixou respirar de alívio por um turno. Lavem as mãos pessoal, lavem as mãos!

 

 

 

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2 opiniões sobre “Pandemic”

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