LISBOA: um guia temático (parte1)

A minha relação com os Euros (os jogos, não a moeda) sempre foi de extremos. Durante a puberdade da minha vida de gamer, só queria jogar euros, explorar a densidade do mais denso dos euros. Como um viciado em droga, à procura nas esquinas mais escuras e mal-cheirosas um dealer de Martin Wallace ou de Stefan Feld. A overdose levou-me a colocar de lado os euros, migrando quase exclusivamente para jogos mais temáticos, talvez mais simples, passando a ser um dos paladinos que gritava “Não mais às trocas comerciais no mediterrâneo! Os jogos do Feld são tão interessantes quanto o Campeonato do Mundo de Curling! Fora os Euros!” . Entre esta esquizofrenia, jogava ás vezes, num beco escondido, um ou outro euro. Um Castles of Burgundy, um Concordia, para matar um bocado as saudades daquelas boas dores de cabeça. Mas a paciência para os novos euros que eram lançados parecia esgotada. Essa era a minha fase do velhinho do café. “Estes novos euros é tudo a mesma coisa. Já não se fazem euros como antigamente”. Os jogos, não a moeda!

Eis que toca a campainha e o carteiro, com o meu cão imaginário agarrado à sua perna, entrega-me uma encomenda. Pelo peso, deveria ser talvez um set de halterofilismo. Pois bem, seja, pensei enquanto vestia os collants de licra. Vamos abater uns quilinhos.

Para meu espanto, dentro da caixa encontrava-se uma cópia de LISBOA, o novo jogo do Vital Lacerda.

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image by Vital Lacerda

Mas, mas… bloqueei mentalmente… este jogo tem um grau de complexidade 4.41 em 5 segundo o BGG. O meu nariz vai sangrar só de aprender as regras.

Um misto de emoções, unhas roídas, duas velas acessas a Nossa Senhora do Tabuleiro e uma garrafa de whisky depois, a parte de mim que gosta de um bom euro deu um murro na mesa dizendo: Basta de mariquices! Vais aprender este jogo e vais mostrar ao mundo o quão temático e brilhantemente desenhado este jogo é. Rápido! Tira esses collants de licra, ficam-te super mal!!!

Mas… mas, balbuciei, temos mesmo de tirar os collants?!

(Música de Fundo daquelas que se colocam quando se está prestes a anunciar algo interessante).

LISBOA: um guia temático – Parte 1 

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photo by John Doe

Ainda bem que perguntastes! Pois bem dentro da caixa encontra-se um pedaço de Portugal espalhado entre milhares de diferentes pedaços de cartão: Um gigante em forma de tabuleiro de jogo, alguns de tamanho médio em forma de tabuleiros de jogadores, outros pequenos em forma tantas outras coisas desde moedas a … perucas. E sim,  vamos falar de perucas.

Depois há pedaços de madeira para todos os gostos – os meus preferidos são os cubos vermelhos: apesar de não saberem a morango como seria de esperar, a madeira tem travo agradável. Cubos, Mepples, discos, you name it!

E cartas. Muitas cartas.

Ah, dois sacos de tecido também.

Bom, agora que vos expliquei a montra final, podem clicar na imagem para verem melhor o que vem na caixa de LISBOA (não, não vão encontrar nenhuma Lenka na imagem!)

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image by Vital Lacerda

E deixem-me afirmar aqui perante esta enorme plateia composta pelo senhor que aspira o chão do escritório, duas impressoras e uma taça de café que, LISBOA é provavelmente o jogo com a arte gráfica mais extraordinária que alguma vez vi.

A primeira vez que abri o tabuleiro à minha frente, a minha mulher teve que me estender um guardanapo pois estava-me a babar ininterruptamente, causando um pequeno tsunami no tabuleiro (pun intended). Todo o conceito gráfico, baseado nos azulejos Portugueses, a atenção ao detalhe que nos parece puxar para aquele momento específico da história, um rendilhado em tons de azul e de Portugalidade. Ian O’Toole superou-se e criou uma obra de arte que ilustra a outra obra de arte que são os mecanismos desenhados pelo Vital, que se interligam e criam uma dinâmica de jogo que vos explicarei mais tarde, porque agora, é altura de falar de perucas.

It’s all about perucas, baby!

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image by boardgamestories.com

Sim. Perucas!

Comecemos este guia temático pelo final: quem tiver mais perucas ganha o jogo. Em jogos contra o Tony Carreira, ela leva uma de avanço, mas poderemos rapidamente recuperar se soubermos maximizar as nossas acções. Adoro este sentido de humor do Vital que usa as perucas (aparentemente algo bastante apreciado na época) em vez dos usuais Pontos de Vitória.

Mas voltemos ao início. Este jogo ocorre após o terramoto de 1755 e segundo o livro de regras (brilhantemente traduzido para Português por João Ferreira e que pode ser encontrado aqui) neste jogo os jogadores são “nobres influentes que sobreviveram ao terramoto, tsunami e aos fogos, e que irão ajudar na reconstrução e no desenvolvimento económico da nova cidade para receberem graças do rei e do marquês. Irão trabalhar com os arquitetos para construir a nova Lisboa a fim de ganhar Infuência e o mais importante de tudo: Perucas.”

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image by Mark Robinson

Antes do jogo começar, os jogadores simulam durante o setup a destruição do terramoto colocando nos espaços respectivos cubos que simulam a destruição causada. É precisamente no lado direito do tabuleiro que isto acontece e onde nós iremos construir aquela que ficará conhecida como a Baixa Pombalina. Reparem na precisão temática: a planta da cidade a ser construída é uma representação quase fidedigna da situação actual. Isto leva a perguntas de várias pessoas tais como: Porque é que a coluna de edifícios mais à direita tem metade do tamanho que as outras? Porque é que na faixa A, falta um edifício no espaço mais à esquerda? A resposta é simples: porque a cidade é assim. O Vital poderia ter simplificado o layout para evitar este tipo de observações, mas eu aqui estou completamente de acordo com as escolhas dele: estamos a reconstruir Lisboa, não uma representação de Lisboa. Por isso, quando me perguntam no meu grupo de jogo (maioritariamente composto por estrangeiros) este tipo de coisas, eu respondo da primeira vez. Da segunda vez atiro-lhes com uma broa de aviz á testa para eles sentirem o peso da nossa cultura.

Do lado esquerdo do Tabuleiro temos os Nobres que iremos tentar visitar ou fazer umas trocas mutualmente benéficas  (wink, wink) e os baralhos com as cartas que vamos adquirindo à medida que o jogo vai avançando.

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image by Ian O’Toole

Os nossos tabuleiros de jogador são também uma brilhante integração daquilo que teremos que gerir ao longo do jogo:

  • Os bens que produziremos nas lojas que construiremos (armazenados à esquerda na imagem);
  • As cartas que jogaremos para activar trocas comerciais ou trocas mutualmente benéficas com os nobres (wink, wink);
  • As plantas que iremos acumular para abrir edifícios públicos (em baixo, ao centro na imagem);
  • As lojas que poderemos construir e os oficiais que poderemos recrutar (à direita na imagem);
  • Os benefícios que poderemos receber se formos amigos do bom velho clero (á direita, em cima na imagem);
  • E a Gaiola Pombalina que passarei a descrever porque merece um parágrafo só para si;
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Gaiola Pombalina, image by Vital Lacerda

Se há uma parte onde o tema transborda da caixa do jogo tal como um sorvete escorre pelo cone abaixo em dias de calor extremo, é nestes pequenos detalhes históricos onde o Vital cose com mestria o tema e os mecanismos do jogo. Caso não saibam, a Gaiola Pombalina é um sistema construtivo que foi usado nas paredes das novas construções após o terramoto. Consiste em encher com escombros a estrutura de madeira. Isto não só tornou as construções mais ligeiras como permitiu também reutilizar muitos dos escombros. Mas acima de tudo, este novo sistema tinha também tem uma boa prestação sísmica – coisa essencial para uma cidade praticamente destruída por um. Neste jogo, o Vital usa o conceito da Gaiola Pombalina para determinar não só quantas cartas e bens de cada tipo um jogador pode acumular no seu tabuleiro (por cada set de 3 cubos de destroços diferentes – azul, vermelho e leite com um bocado de café – o jogador aumenta a capacidade do seu portfólio), como também usa-a como um dos mecanismos que pode accionar os dois momentos importantes do jogo: o fim da primeira fase e o fim do jogo. Brilhante!

Mas guardemos para o próximo episódio os detalhes relativamente a como jogar o jogo, porque a hora é avançada e o senhor do aspirador está a olhar com cara de desconfiado para os meus collants.

Até lá, joguem muito jogos e deixo-vos com mais algumas imagens desta peça de arte.

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image by Vital Lacerda
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image by Vital Lacerda
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image by Vital Lacerda
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image by Vital Lacerda
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image by Vital Lacerda

 

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